Céu cinzento sob as
nuvens do prédio. Cobertura alta, topo do arranha-céu. Os telhados perversos
apoiavam ao chão meus pés em pedra. Pedra em pé eu sou, firme como o concreto
que me sustenta. Sobrevoo ao além nuvens. Cinza, céu cinzento. Para onde foi minha paz, onde busco meu
alento? Minha asa quebrada. Meus pés de pedra que tocam o chão tão duro. Sujo. Frio.
Meu corpo em
transformação. Eterna metamorfose que me deleita o corpo e não acaba mais.
Petrifico-me às mãos, já não sinto meus pés. Minha alma inocente atingida, e eu
que só queria seguir meu destino em paz. Em uma pequena paz que nunca
encontrei, e jamais terei a sorte de tê-la em tal mundo que transformou minha
carne em pedra.
Sobrevoo ao topo, na
eterna fuga. Fugindo de mim mesma, e das sombras que me permeiam. As asas de
minha gárgula petrificam minhas costas. Cinza, céu cinzento. O dia está
sumindo, como sumo de mim mesma. O topo do arranha-céu, com todas as suas cores
e visão para a cidade – corrida, agitada, opaca. Igrejas, lojas, lanchonetes.
Carros, ônibus e motos. – num cruzamento sem fim.
Descanso minhas asas já
exaustas de tanto sobrevoarem o amanhecer. Está na hora de anoitecer em mim.
Não lembro quando me tornei o que sou. De quando você se tornou também.
Lembro-me de quando éramos apenas ruídos
na escuridão. Indolores. Não fazíamos nada de errado. Mudo de rota,
mantenho a trajetória. Onde, no final deste caminho, encontrarei minha vitória?
Éramos corpos leves de
almas pesadas. Quando nos tornamos corpos pesados de almas insuportáveis de
serem carregadas? Cinza, céu cinzento. Onde está o meu alento? Quero adormecer
quando as estrelas vierem, e acordar quando elas nos deixarem na solidão.
Foge. Ainda dá tempo?
Se der, não esqueça que nosso céu sem nuvens estará olhando por nós quando
voltarmos. Cinza, céu cinzento.
Oh, tenebrosa
escuridão. Quando deixei de ser gente, e me tornei essa simples pedra? Tão
dura. Tão suja. Tão fria.
Cinza, céu cinzento.
Cecília Albuquerque.
P.S.: Sou Cecília Albuquerque. Embora também seja Juliana Rodrigues, e vez ou outra, Julianna Rodríguez. E Laura Belmonte. Sou várias pois sou escritora e ao escritor se dá o direito de ser vários. Vários pseudônimos. Vários heterônimos. E principalmente, ao ser humano se dá o direito de ser diversos, pois dentro de cada um, existe um mundo. Uma imensidão que muda e se adéqua a diversas fases da vida. Vez ou outra, serei Cecília Albuquerque. Ou então, Laura. Mas em meu íntimo, sempre serei Juliana.
Inspirado em Lispector.
Inspirado em Lispector.


